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no que eu fui me meter?

Austrália de van

Três meses de roadtrip de Straddie até Darwin, com duas amigas, 15.131 km e perrengue que não acabava mais.

A van branca da roadtrip parada no deserto australiano com as três amigas
na primeira noite,O fogão pegou fogo
três vezes

Três. A gente desistiu, jantou massa fria e eu olhei pras meninas pensando: no que eu fui me meter?

Só que na manhã seguinte a gente acordou em Mooloolaba tomando café com o mar bem na nossa frente, e a ficha caiu. Era exatamente isso que a gente tinha ido buscar.

Eu moro na Austrália há dois anos e já rodei por praticamente todo canto. Esse post é o resumão da minha maior aventura por aqui: 3 meses de roadtrip de van com duas amigas, a Gabi e a Amanda, saindo de Straddie, subindo a costa de Queensland, cruzando o deserto até Uluru e chegando em Darwin.

O plano era dar a volta completa no país, mas o dinheiro acabou. Paramos em Darwin pra trabalhar um pouco e foi lá que meus planos mudaram e eu decidi ir pra mineração. Mas isso é papo pro final.

Cozinha improvisada dentro da van, com fogão e panelas
Marshmallows assando na fogueira durante o acampamento
a casa sobre rodas

Aqui embaixo está o roteiro na ordem em que eu fiz, com o que fazer em cada parada, o que eu evitaria e um tópico só com valores no final. Eu usei o Google MyMaps pra marcar todos os pontos que queria visitar, e vale muito a pena: esse é o meu mapa da viagem.

Prefere ver em vídeo? Eu gravei essa roadtrip em episódios, separados por trecho, e eles estão salvos nos destaques do meu Instagram. Dá pra acompanhar a viagem inteira por lá enquanto lê o roteiro aqui.

Straddie: a ilha que foi nossa primeira casa

Nossa roadtrip começou aqui, e não à toa. North Stradbroke Island é uma ilha pequena e remota perto de Brisbane, sem vida noturna e com natureza de sobra. Tem canguru em toda rua, coala nas árvores, tartaruga, raia e golfinho na água, e um céu estrelado surreal.

Como a ilha tem pouquíssimos habitantes, a comunidade de viajantes é super unida: rola música, fogueira, acampamento na praia. O surf também é forte por lá.

Dica: não espere balada. O programa é natureza, pôr do sol e gente boa.

Eu morei em Straddie por mais de um ano, então esse pedaço aqui não é lista de internet: é o que eu testei, praia por praia.

Antes de ir

  • Como chegar: saem duas empresas de Cleveland (Toondah Harbour) até Dunwich. A SeaLink leva carro e passageiro; a Stradbroke Flyer é só passageiro, tipo um water taxi, e é mais rápida pra quem não vai de carro.
  • Vá de carro no ferry se puder. Os horários de ônibus na ilha são bem reduzidos, e sem carro é praticamente impossível encaixar mais de uma ou duas praias por dia. Você acaba refém do horário de volta.
  • Sinal de celular: a recepção na ilha é irregular e várias operadoras simplesmente não pegam em partes de Straddie. Se puder escolher, vá de Telstra, que é a que funciona na ilha inteira.

As praias, na ordem que eu recomendaria

  • Cylinder Beach. Tem duas entradas: uma pelo camping, ótima pra passar a noite por ali, e outra pela parte de cima. Essa de cima é a minha queridinha, com vista pro nascer e pro pôr do sol. Dá pra avistar golfinho e, com sorte, baleia.
  • Deadman's Beach. O nome assusta, mas a praia é um sonho. Tem estacionamento e mesinhas pra piquenique, e várias piscinas naturais. É o lugar certo pra quem busca silêncio.
  • Frenchman's Beach. O acesso é por uma escada enorme e sim, cansa, mas vale cada degrau. Tranquila, ótima pra explorar as pedras, e o nascer do sol de lá é um espetáculo.
  • Adder Rock. Super popular pra acampar, vibe descontraída. Pôr do sol único e piscinas naturais boas pra snorkeling.
  • Home Beach. Fica em frente ao hostel Manta, com água calminha ótima pra nadar. Cantinho tranquilo pra curtir o dia sem grandes planos.
  • South Gorge. Águas cristalinas e vida marinha incrível pra snorkeling. Alerta de amiga: não tem salva-vidas e há registro de tubarão na área, então fica esperta. Se subir até o Surf Club, a vista é uma das melhores da ilha.
  • Flinders Beach (em Amity) e Main Beach. As duas pedem 4x4 e acesso por estrada de areia. Main Beach é extensa e tem onda boa pra surfar, com um nascer do sol lindo demais.
  • Brown Lake. Como o nome entrega, o lago é marrom e lindo. Água doce cercada de floresta, ótimo pra nadar, relaxar e fazer piquenique. Tem churrasqueira de graça no local.
  • Amity Point Jetty. Se você quer ver golfinho, Amity é o lugar. Pra nadar não tem muito espaço, porque a região é conhecida por tubarão, mas a área perto do píer é cercada e segura. O pôr do sol de lá é inesquecível.

Onde ver cada bicho

  • Canguru, o ano todo: nas áreas mais abertas, principalmente entre a North Gorge Walk e a Cylinder Beach.
  • Coala, o ano todo: em pontos arborizados e tranquilos, sobretudo Amity Point e Brown Lake.
  • Baleia-jubarte, de junho a novembro: elas migram pela costa nesse período, e o ponto é a North Gorge Walk.
  • Golfinho, o ano todo: fácil de avistar pela costa, melhor na Cylinder Beach e no píer de Amity.
  • Tartaruga, de novembro a março: temporada de desova, dá pra ver da North Gorge Walk.
  • Manta-raia, de outubro a abril: também da North Gorge Walk, em águas calmas.

Onde comer, beber e ficar

  • Straddie Eats é o melhor café da manhã da ilha, com egg toast e eggs benedict. Fever on Straddie também é ótimo, com mesinhas no parque.
  • Blue Room é o café mais fofo, com vista pra praia e uma lojinha do lado. Parada obrigatória.
  • Fins and Fries tem o melhor fish and chips e hambúrguer da ilha. O outro "fishes" não vale o seu tempo.
  • Prawn Shark tem o melhor sanduíche de camarão que eu já comi, montado na hora. Pega e vai comer no morrinho da esquina, olhando pro mar.
  • Beach Hotel pra encontrar os amigos e tomar uma cerveja com vista, Oásis pra pizza e drinks (às vezes rola música ao vivo), Bowls Club pra festinha com banda australiana, e a Straddie Brewery, única cervejaria da ilha. Pra jantar mais chique, Six Beaches.
  • Pra lembrancinha: Starfish Studio, com designs feitos à mão pela artista local Jess Scott, todos inspirados na ilha; e a Cloud Fish Bookstore & Gallery, bem do lado do Blue Room.
  • Manta Lodge YHA é o único hostel da ilha, em frente à praia em Point Lookout e com centro de mergulho junto. Costuma ter vaga mesmo em cima da hora.

Sunshine Coast: o início caótico

A primeira parada foi Mooloolaba. Depois do caos do fogão, compramos um novo e achamos uma vaga com churrasqueira bem em frente à praia de Alexandra Headland. Nossa primeira refeição foi às 11 da manhã, mas foi ali que tudo começou de verdade.

O que fazer por lá: praia, caminhada no Mooloolaba Spit e uma esticada no Buderim Forest Park.

Seguimos pra Noosa, onde rolou música na rua, passeio pelo centrinho, pôr do sol e uma jantinha tailandesa. Eu adorei Noosa, tem uma vibe bem leve e gostosa. Dormimos em frente à praia de Coolum e no fim do dia dirigimos até Kandanga.

Rainbow Beach e K'gari: duna, parapente e um dia a mais

Rainbow Beach foi um daqueles lugares que a gente planejou ficar um dia e ficou dois. A gaveta traseira da van quebrou no meio do almoço (frango com feijão e arroz, simples e perfeito), a gente teve que parar, consertar, reorganizar tudo e acabou sem ver o que queria. Melhor decisão: ficar mais um dia.

Trilha na mata de Cooloola, perto de Rainbow Beach
cooloola · rainbow beach

Roteiro de 1 dia que eu recomendo

  • Nascer do sol no Carlo Sand Blow. É um dos melhores pontos de parapente da Austrália, então se você quer adrenalina e uma vista única, vale tentar.
  • Caminhada no Poona Lake, um lago de água doce cercado de vegetação. A trilha tem uns 4 km ida e volta.
  • Seary's Creek.
  • Coloured Sand Cliffs, os penhascos de areia colorida.
  • Um passeio pelo centrinho e pôr do sol no Surf Club, que foi onde a gente fechou o dia planejando o próximo roteiro.

K'gari (Fraser Island) fica logo ali, com lagos e piscinas naturais. A travessia de balsa custa em torno de $40 ida e volta, e você precisa alugar um carro adequado ou fechar um tour. O tempo estava bem fechado e com previsão de chuva a semana inteira, então a gente teve que abrir mão da ilha. Esse é um dos meus arrependimentos dessa viagem.

Maryborough, Childers e Agnes Water: a van cobrando a conta

Nem toda parada é postal. Em Childers a gente só dormiu. Em Agnes Water e 1770 foi praia e descanso. Já em Maryborough a gente achou um camping gratuito, mas a van atolou na grama. Tentamos de tudo, nada funcionou, dormimos no mesmo lugar e no dia seguinte um casal ajudou a tirar a gente de lá.

Aí veio o clássico: paramos no posto pra conferir água e óleo. Aqui na Austrália não tem frentista, é tudo por sua conta, e as meninas, com a melhor das intenções, colocaram água no lugar do óleo. Sim, caos. Ligamos pro mecânico, compramos o filtro e esperamos até as 14h no correio. Quando deu a hora de ir ao mecânico ele avisou que fecharia em 10 minutos e não ia mais atender a gente. Mas ele não sabia com quem estava lidando: brasileiro não desiste. Convencemos o homem, arrumamos a van e caímos na estrada de novo.

Dica: aprenda a conferir óleo e água antes de sair. Não delegue.

Yeppoon e Great Keppel: perder a balsa também faz parte

Em Rockhampton e Yeppoon a gente encarou um tour de bares e festa que passou do ponto, tanto que perdemos a balsa pra Keppel no dia seguinte. Pelo menos era domingo e fez sol, então fomos numa feira, fizemos um piquenique e eu ainda torci o pé correndo, com zero elegância. No fim da tarde, um pôr do sol lindo.

No dia seguinte, balsa pra Great Keppel Island, com trilha, vista linda e minha primeira vez fazendo snorkel. Foi justamente no começo da Grande Barreira de Corais, em Long Beach, e a gente nadou seguindo uma linha na água vendo um monte de peixe colorido. A ilha também tem a Shelving Beach.

  • A balsa sai de Rosslyn Bay, perto de Yeppoon. Pagamos $60 ida e volta.
  • Não inclua o almoço no ticket. Tem poucas opções e várias restrições, então escolha direto no restaurante.
  • Leve seus próprios equipamentos de snorkel.
Selfie de máscara de snorkel na água em Great Keppel Island
meu primeiro snorkel

Airlie Beach e Whitsundays: o lugar que parece mentira

Airlie Beach é a porta de entrada da Grande Barreira de Corais. Tem vibe jovem, muita festa, veleiro pra todo lado e a Whitehaven Beach, uma das mais lindas do mundo.

Nosso primeiro dia lá foi pura confusão: trancamos a chave dentro do carro (resolvemos com um arame, juro), roubaram nossas roupas na lavanderia e a gente foi parar na delegacia. Depois do caos, sushi pra acalmar o coração e um rolê pela cidade, que é pequena e charmosa.

No dia seguinte, café de frente pro mar e uma das melhores experiências da minha vida: sobrevoar a Grande Barreira de Corais. Vi o famoso coração de coral. Surreal. Fechamos o dia com churrasquinho no pôr do sol.

Vista aérea dos corais da Grande Barreira durante o voo panorâmico
Areia branca e água azul-turquesa em Whitehaven Beach
o voo sobre a barreira e whitehaven

Aí veio o veleiro. Foram dois dias no barco com a East Coast Tours. No primeiro dia, snorkel na barreira, com peixes gigantes, estrela-do-mar e até um peixe que mordeu meu dedo. Nós, vanlifers, sonhamos com um banho de princesa e ganhamos uma mangueira de 1 minuto, e foi divertido do mesmo jeito. A noite teve gringos, drinks, jogos e muita risada. No segundo dia, nascer do sol do barco e Whitehaven Beach, onde nadamos com raias e vimos um lemon shark.

O lugar é simplesmente surreal, não é à toa que entrou pro meu top 3 lugares mais lindos da Austrália.

Atenção: tem que cuidar das águas-vivas (stingers) na temporada quente. Nunca entre no mar sem checar os avisos.

Bowen e Townsville: um possum, um hospital e um coala

Paramos em Bowen e a cidade é uma gracinha. Fizemos um circuito de 5 km com um visual incrível e passamos pela King's Beach. Dormimos na casa de um amigo australiano, e olha que a gente estava num estado que dava saudade de lavar louça numa pia de verdade e de ter uma cama só pra si.

Chegamos em Townsville achando que ia ser só mais uma noite tranquila, e em menos de uma hora um possum mordeu meu pé e eu fui parar no hospital. O tipo de história que a estrada insiste em entregar. Depois de algumas horas, eles limparam a mordida, tomei vacina antitetânica e contra raiva e tudo ficou bem.

No dia seguinte, café no Jardim Botânico e, mesmo com quatro horas de sono, seguimos pra Magnetic Island. A ilha tem trilha com vista pro mar, praias lindas e um parque com coalas e kookaburra, aquele passarinho australiano que está sempre rindo. Reserve um dia inteiro pra ela.

Wallaman, Mission Beach e Babinda: a rota das cachoeiras

Dali seguimos pra Wallaman Falls, a maior queda d'água única da Austrália. E foi aqui que a gente entrou oficialmente na Zona dos Crocodilos. Jantamos um curry apressado no único posto aberto da cidade.

O plano era ir pra Milla Milla Falls, mas a estrada estava fechada, então paramos em Long Beach pra almoçar e já deixar as próximas refeições preparadas. Depois foi Josephine Falls, com uma pedra escorregadia muito legal, e Babinda, com uma água que me encantou de verdade. Wongaling Beach (Mission Beach) e Innisfail também entraram no nosso caminho.

Dica: por causa da chuva, pegamos algumas estradas bloqueadas. Vale conferir no Maps antes de sair.

O grupo a bordo do veleiro nas Whitsundays
Wallaman Falls, a maior queda d'água única da Austrália
dois dias de veleiro, e depois as cachoeiras

Cairns e Palm Cove: praia com aviso de crocodilo

Chegamos em Cairns bem no finalzinho do pôr do sol, com a cidade cheia de vida e um evento rolando. Jantamos pizza e fechamos com waffle. Cairns tem muito backpacker, muita opção de restaurante e barzinho, e é outro ponto de saída pra Grande Barreira de Corais. Ficamos na casa de um amigo australiano que a gente conheceu na estrada, e foi ótimo ter um cantinho fixo por uns dias.

O que fazer por lá: piquenique no Jardim Chinês, Botanical Garden, Esplanade Lagoon, galeria de arte. Teve uma praia que só deu pra olhar de longe porque tinha alerta de crocodilo, e em Palm Cove foi igual: linda, mas com aviso, então curtimos da areia.

À noite, a gente foi num bar assistir a um jogo de rugby entre Queensland e New South Wales, o famoso State of Origin, que eles vivem como se fosse final de Copa. Depois rolou festinha com dança country, do jeito que os aussies adoram. Depois de tanto tempo só em meio à natureza, foi bom aproveitar a vida noturna.

Port Douglas e Daintree: a floresta mais antiga do mundo

De Cairns fomos pra Port Douglas e depois Daintree Rainforest, considerada a floresta tropical mais antiga do mundo. Esse lugar lembra um pouco as florestas do Brasil, por causa do clima tropical, e a trilha é bem legal.

Visitamos um parque de crocodilos, onde vimos esses gigantes pela primeira vez, e eu fiquei muito chocada com o tamanho deles: os machos passam dos 5 metros. Eles são muito inteligentes e observam a presa por dias antes de atacar. Foi ali que eu descobri a existência dos crocodilos de água salgada.

O passeio em Daintree custa cerca de $30 por pessoa, e a gente comprou quando chegou lá mesmo. Depois fomos pra Mossman Gorge, que virou uma das minhas florestas preferidas até agora.

No dia seguinte, hora de organizar a van, trocar o bagageiro que rasgou e começar a preparar a próxima etapa: o deserto australiano. Depois de hospital, floresta, praia, crocodilo, festa e cidade, a gente estava pronta pra encarar o oposto de tudo isso.

Trilha na floresta tropical de Daintree
Placa de alerta de crocodilo no parque em Daintree
daintree · a floresta mais antiga do mundo

A travessia do Outback: 3 dias, zero sinal e um radiador quebrado

Antes de cair na estrada rumo ao deserto, teve toda uma preparação. A gente sabia que ia enfrentar trechos sem sinal, sem água e sem estrutura nenhuma, então montamos nosso próprio plano de sobrevivência. E claro que a bateria da van pifou bem nessa hora. Trocamos antes de seguir, porque no meio do deserto não tem ajuda.

Duna vermelha do deserto australiano ao entardecer
três dias de travessia

Foram três dias dirigindo até o coração da Austrália, cerca de 10 horas por dia, sem quase nenhuma alma viva. Só vaca, dingo e muito canguru na estrada. Passamos por Alice Springs, que tem fama de ser a cidade mais perigosa do país. A dica que eu anotei foi evitar a Gap Road e o Todd Mall depois das 22h, e não deixar nada à vista dentro do carro, nem no teto, porque tem bastante furto.

Quando a gente estava a uns 100 km de Alice, o radiador da van quebrou. Por sorte tinha uma roadhouse a 5 km, de onde ligamos pra todas as lojas da cidade mais próxima. Todos os mecânicos pediam pelo menos 14 dias pra agendar o serviço. Por sorte, um australiano que estava hospedado na roadhouse topou nos ajudar a trocar a peça e a van voltou a funcionar.

Enquanto procurávamos a peça e consertávamos a van, ficamos 3 dias a mais do que o planejado no meio do nada. A parte boa é que vimos camelo pela primeira vez e tomamos vinho com os australianos perto da fogueira.

Checklist antes de entrar no deserto

  • Baixe mapas offline. Aqui você não pode depender de internet.
  • Planeje as paradas e encha o tanque em todo posto grande antes de entrar em trecho remoto.
  • Leve mais água do que você acha que precisa.
  • Prepare comida pros dias de travessia, porque você vai enfrentar longas distâncias sem nenhuma opção na estrada.
  • Faça uma revisão completa na van antes de sair: bateria, radiador, pneus, óleo, estepe e ferramentas básicas.
  • Avise alguém da rota.
  • Verifique as regras de free camping do local e a sinalização antes de parar.

Uluru e Kata Tjuta: o coração da Austrália

A gente atravessou o deserto pra chegar aqui. Uluru fica bem no meio do país, e por isso é chamado de coração da Austrália. Literalmente porque está no centro. Simbolicamente porque carrega a alma dos povos originários que vivem aqui há mais de 60 mil anos. Ele tem mais de 340 metros de altura, maior que a Torre Eiffel, e é considerado um dos maiores monólitos do mundo.

Uluru iluminado de laranja no pôr do sol
uluru · o coração do país
  • Dia 1: nascer do sol atrás da pedra mais sagrada da Austrália, com frio, silêncio e um céu rosa. Depois, a trilha completa ao redor da formação, 10 km sob um sol absurdo e mosca por todo lado. É reta, mas o calor seco deixa tudo muito difícil, e cada passo vale. No fim do dia, o pôr do sol pintou a pedra de laranja, rosa e vermelho. Nesse momento eu chorei de gratidão, um dos sunsets mais lindos que já vi na vida.
  • Dia 2: nascer do sol num ponto onde se vê Uluru de um lado e Kata Tjuta do outro. Surreal. Depois, o circuito do Valley of the Winds, uma trilha difícil, cheia de subida e calor, mas com uma vista que compensa cada gota de suor. Kata Tjuta também é sagrado e tem uma energia diferente, mais selvagem e bruta.
  • Dia 3: desacelerar. Participamos de uma oficina de pintura aborígene, onde cada uma pintou o seu próprio animal.

E teve a Field of Light, o campo de luzes no meio do deserto. São mais de 50 mil luzes movidas a energia solar que vão acendendo lentamente conforme o céu escurece. Parece que você está em outro planeta. O passeio custa $40 por pessoa, o transporte sai direto do camping em Ayers Rock, e a experiência dura cerca de uma hora. A gente saiu dali meio hipnotizada.

O céu de Uluru é indescritível, um dos melhores lugares do mundo pra ver a Via Láctea. Acampar sob esse céu e ir na Field of Light são duas experiências que todo mundo deveria ter. Eu vi estrela cadente todos os dias e, pra mim, a natureza foi grandiosa em cada detalhe. E por coincidência ou não, quando pisei em Uluru meu visto foi aprovado. Não é à toa que dizem que esse lugar carrega uma energia potente.

Uma coisa que quase ninguém conta: o resort onde a gente ficou tem uma programação de atividades gratuitas todos os dias. A gente fez uma oficina em que os guias ensinam a encontrar comida e água na natureza, o bush food, e foi de graça. Tem também a fazenda de camelos ali na região. Vale muito conferir a agenda das atividades gratuitas antes de ir, porque muda conforme a temporada.

Camelo selado na fazenda de camelos perto de Uluru
a fazenda de camelos
  • A gente ficou no camping do Ayers Rock Resort.
  • Compramos o passe de 3 dias pros parques por $35 por pessoa. Não vale a pena comprar a opção anual se você vai ficar poucos dias.
  • Camping em Ayers Rock: a partir de cerca de $48 por noite.
  • O calor e as moscas são reais, então leve chapéu e uma rede de cabeça. Sério, senão você vai enlouquecer.
  • Uluru é sagrado e a escalada é proibida. Respeite as placas e as áreas em que não se pode fotografar.
Nascer do sol com as cúpulas de Kata Tjuta ao fundo
Formação de pedra em arco em Uluru
kata tjuta ao amanhecer, e as formações de perto
Campo de luzes da Field of Light aceso no deserto à noite
field of light

Kings Canyon e Mataranka: águas termais no meio do mato

Depois de Uluru, a estrada ainda tinha muito pra ensinar. Kings Canyon é um dos lugares mais grandiosos que a gente já pisou: paredões enormes, silêncio absoluto e um calor seco que abraça a pele. A trilha é intensa, parece que o deserto te testa a cada curva. No caminho achamos um mirante escondido com uma vista maravilhosa.

Na volta, nem tudo foi paz. A gente ajudou um casal que tinha atropelado um canguru e, horas depois, um deles pulou bem na frente da nossa van. Por pouco não rolou um acidente feio. Na Austrália, dirigir faz parte do risco.

Depois de tanta tensão, veio a paz: as águas termais de Mataranka, no meio do mato. Aquele tipo de lugar que lembra como a natureza sabe cuidar da gente.

Dirigir na Austrália: o que ninguém te conta

  • Evite dirigir ao amanhecer, ao entardecer e à noite. É quando o canguru aparece, e eles se jogam no carro.
  • Se não der pra evitar um desses horários, dirija com a luz alta ligada sempre que possível: ajuda a não assustar os bichos.
  • Tenha uma barra de proteção (bull bar) no carro. Além de machucar o animal e ser perigoso pra você, o acidente destrói o carro se você não tiver a barra. Esses acidentes são uma das causas mais comuns na Austrália.
  • Sempre tenha uma pessoa, além da motorista, prestando atenção na estrada. Pode surgir animal de todos os lados, e várias vezes foi um alerta desses que salvou a gente.
  • Chegue no camping antes de escurecer. Confira o horário de funcionamento antes de sair.

Num dos dias, lá no norte, a gente foi obrigada a dirigir à noite porque o camping estava fechado quando chegamos. E aí quase rolou um acidente feio: quase atropelamos um camelo. Vimos uma coisa grande atravessando a estrada, freamos com tudo e, por sorte, a gente estava devagar. Paramos bem em frente ao bichinho. Quando olhamos pra cima, tudo que a gente conseguia ver era o cotovelo dele, e ele era gigante.

Descanso numa pedra vermelha no alto do Kings Canyon
Desfiladeiro com poço de água no centro da Austrália
kings canyon

Darwin: o pôr do sol gigante que nos prendeu por lá

A gente foi recebida em Darwin por um dos pôres do sol mais lindos da viagem. Depois de dias de deserto sem sinal e sem gente, a cidade parecia outro planeta. Foi como um abraço depois da travessia.

Darwin tem crocodilo de sobra, muita gente circulando por causa da base das forças armadas e uma vida noturna que rola até bem tarde: foi o único lugar da Austrália onde eu encontrei festa até as 4 da manhã. Na wet season é um calor infernal e muito úmido, e não dá pra entrar no mar por causa de crocodilo e águas-vivas mortais. Na dry season rola muito acampamento na praia. E os pôres do sol parecem ter um sol gigante.

A ideia era só passar e seguir até Western Australia, mas a gente estava ficando com pouquíssimo dinheiro, então decidimos parar um tempo e fazer uma grana. Em quatro dias todas nós conseguimos emprego, e ainda por cima empregos que contam pra extensão do visto, por ser área regional. A pausa não foi fácil: achar casa foi um caos, a cidade estava cheia e tudo muito caro. Foram dias morando na van, trabalhando o dia inteiro e dormindo num calor de 35 graus. Depois de duas semanas e meia, conseguimos uma casa e, depois de tanto tempo de estrada, ter um teto, uma cama e um banho quente passou a ter outro valor.

Depois de 3 meses, cada uma sentiu que era hora de seguir um rumo diferente. Sem briga, sem drama. Eu não me via ficando mais em Darwin, porque pra mim o mar é essencial, então comprei uma passagem e fui sozinha pra Western Australia.

  • Se pretende visitar Darwin, o melhor é ir na dry season, de maio a outubro.
  • Nunca entre na água em Darwin sem ter as redes de proteção e o aviso de que é seguro.
  • Visite o Mindil Beach Sunset Market e assista ao pôr do sol na praia. Ele rola às quintas e domingos, das 16h às 21h, da última quinta de abril até a última quinta de outubro.
  • Bares e festa: Monsoons (o Monnies, na Mitchell Street), Shenannigans (Irish pub) e Sweethearts (bar com um piano no centro).
  • Acampar nas praias com 4WD é parada obrigatória: pôr do sol, jantar na grelha, fogueira, ver o sol nascer e se pôr.
Camelos na praia ao pôr do sol em Darwin
darwin · mindil beach

Apps, custos e o que eu faria diferente

Os apps que eu usei

  • CamperMate: pra achar camping gratuito, campings pagos, banheiros, chuveiros, lavanderias e ver avaliações de outros viajantes. Cheque sempre as avaliações antes de ir, pra evitar o mesmo perrengue que a gente passou na primeira noite.
  • Fuelradar: pra comparar preço de combustível. A diferença de posto pra posto pesa muito, porque o combustível é a parte mais cara da roadtrip.
  • Google MyMaps e Maps: pra marcar todos os pontos e planejar a rota.
  • Notion: pra organizar a viagem.

O que eu faria diferente

  • Guardaria uma reserva maior pra imprevistos. O nosso dinheiro acabou antes da volta completa.
  • Testaria o fogão e os outros itens antes de sair de casa.
  • Sempre revisaria as reviews dos camps gratuitos.

Um ponto importante: pra fazer uma viagem dessas você precisa de um bom seguro de carro que cubra todo o território. O que a gente usou foi o da NRMA.

Quanto custou

Valores da época em que eu fiz a viagem, então podem ter mudado. Confira sempre antes de reservar.

a van

  • Compra e manutenção: ~$13.000
  • Quilômetros rodados: 15.131 km

transporte

  • Combustível total: ~$3.600

hospedagem

  • Campings pagos: $192

passeios e experiências

  • Great Keppel Island, balsa mais almoço: $75
  • K'gari, balsa ida e volta: ~$40 por pessoa
  • Daintree Rainforest, passeio: $30 por pessoa
  • Uluru, passe de 3 dias: $35 por pessoa
  • Field of Light: $40 por pessoa
  • Veleiro de 2 dias em Whitsundays: $280
  • Voo de helicóptero sobre a Grande Barreira: $350

O resumo dos principais gastos: a van, entre compra e manutenção, foi ~$13.000. O combustível, ~$3.600. Os passeios somados deram ~$850. Tudo isso pra rodar 15.131 km pela Austrália.

O que eu ganhei me desafiando a viver com menos

Eu nunca me imaginei morando em uma van. Passei por vários desafios: tomar banho frio, lavar louça no chão, não ter privacidade, ter pouquíssima coisa, tipo poucas roupas. Mas quando eu me permiti olhar tudo isso de outra forma, essa vida me ensinou a ser mais minimalista, mais simples e, ao mesmo tempo, mais grandiosa. Ter mais com menos.

Comecei essa viagem jantando massa fria numa van em Straddie e terminei em Darwin, com emprego novo, plano novo e uma passagem só de ida pro outro lado do país. Nada saiu como eu imaginei, e ainda bem.

Se tem uma coisa que essa viagem me ensinou é que a gente não precisa ter tudo planejado pra dar certo. O fogão pega fogo, a van quebra, o dinheiro acaba, o mapa muda. E mesmo assim, ou justamente por isso, foi a melhor coisa que eu fiz.

E lembra que eu falei que ia contar da mineração? Foi em Western Australia que esse plano ganhou forma. Se você quer entender como entrar nesse mundo, comece por aqui.

Espero que esse roteiro possa te ajudar a montar o seu.

Os passeios eu reservo pela GetYourGuide, com o código VOAGIO5 pra 5% de desconto em qualquer tour, no mundo todo.

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