Três meses de roadtrip de Straddie até Darwin, com duas amigas, 15.131 km e perrengue que não acabava mais.
Três. A gente desistiu, jantou massa fria e eu olhei pras meninas pensando: no que eu fui me meter?
Só que na manhã seguinte a gente acordou em Mooloolaba tomando café com o mar bem na nossa frente, e a ficha caiu. Era exatamente isso que a gente tinha ido buscar.
Eu moro na Austrália há dois anos e já rodei por praticamente todo canto. Esse post é o resumão da minha maior aventura por aqui: 3 meses de roadtrip de van com duas amigas, a Gabi e a Amanda, saindo de Straddie, subindo a costa de Queensland, cruzando o deserto até Uluru e chegando em Darwin.
O plano era dar a volta completa no país, mas o dinheiro acabou. Paramos em Darwin pra trabalhar um pouco e foi lá que meus planos mudaram e eu decidi ir pra mineração. Mas isso é papo pro final.


Aqui embaixo está o roteiro na ordem em que eu fiz, com o que fazer em cada parada, o que eu evitaria e um tópico só com valores no final. Eu usei o Google MyMaps pra marcar todos os pontos que queria visitar, e vale muito a pena: esse é o meu mapa da viagem.
Prefere ver em vídeo? Eu gravei essa roadtrip em episódios, separados por trecho, e eles estão salvos nos destaques do meu Instagram. Dá pra acompanhar a viagem inteira por lá enquanto lê o roteiro aqui.
Nossa roadtrip começou aqui, e não à toa. North Stradbroke Island é uma ilha pequena e remota perto de Brisbane, sem vida noturna e com natureza de sobra. Tem canguru em toda rua, coala nas árvores, tartaruga, raia e golfinho na água, e um céu estrelado surreal.
Como a ilha tem pouquíssimos habitantes, a comunidade de viajantes é super unida: rola música, fogueira, acampamento na praia. O surf também é forte por lá.
Dica: não espere balada. O programa é natureza, pôr do sol e gente boa.
Eu morei em Straddie por mais de um ano, então esse pedaço aqui não é lista de internet: é o que eu testei, praia por praia.
A primeira parada foi Mooloolaba. Depois do caos do fogão, compramos um novo e achamos uma vaga com churrasqueira bem em frente à praia de Alexandra Headland. Nossa primeira refeição foi às 11 da manhã, mas foi ali que tudo começou de verdade.
O que fazer por lá: praia, caminhada no Mooloolaba Spit e uma esticada no Buderim Forest Park.
Seguimos pra Noosa, onde rolou música na rua, passeio pelo centrinho, pôr do sol e uma jantinha tailandesa. Eu adorei Noosa, tem uma vibe bem leve e gostosa. Dormimos em frente à praia de Coolum e no fim do dia dirigimos até Kandanga.
Rainbow Beach foi um daqueles lugares que a gente planejou ficar um dia e ficou dois. A gaveta traseira da van quebrou no meio do almoço (frango com feijão e arroz, simples e perfeito), a gente teve que parar, consertar, reorganizar tudo e acabou sem ver o que queria. Melhor decisão: ficar mais um dia.

K'gari (Fraser Island) fica logo ali, com lagos e piscinas naturais. A travessia de balsa custa em torno de $40 ida e volta, e você precisa alugar um carro adequado ou fechar um tour. O tempo estava bem fechado e com previsão de chuva a semana inteira, então a gente teve que abrir mão da ilha. Esse é um dos meus arrependimentos dessa viagem.
Nem toda parada é postal. Em Childers a gente só dormiu. Em Agnes Water e 1770 foi praia e descanso. Já em Maryborough a gente achou um camping gratuito, mas a van atolou na grama. Tentamos de tudo, nada funcionou, dormimos no mesmo lugar e no dia seguinte um casal ajudou a tirar a gente de lá.
Aí veio o clássico: paramos no posto pra conferir água e óleo. Aqui na Austrália não tem frentista, é tudo por sua conta, e as meninas, com a melhor das intenções, colocaram água no lugar do óleo. Sim, caos. Ligamos pro mecânico, compramos o filtro e esperamos até as 14h no correio. Quando deu a hora de ir ao mecânico ele avisou que fecharia em 10 minutos e não ia mais atender a gente. Mas ele não sabia com quem estava lidando: brasileiro não desiste. Convencemos o homem, arrumamos a van e caímos na estrada de novo.
Dica: aprenda a conferir óleo e água antes de sair. Não delegue.
Em Rockhampton e Yeppoon a gente encarou um tour de bares e festa que passou do ponto, tanto que perdemos a balsa pra Keppel no dia seguinte. Pelo menos era domingo e fez sol, então fomos numa feira, fizemos um piquenique e eu ainda torci o pé correndo, com zero elegância. No fim da tarde, um pôr do sol lindo.
No dia seguinte, balsa pra Great Keppel Island, com trilha, vista linda e minha primeira vez fazendo snorkel. Foi justamente no começo da Grande Barreira de Corais, em Long Beach, e a gente nadou seguindo uma linha na água vendo um monte de peixe colorido. A ilha também tem a Shelving Beach.

Airlie Beach é a porta de entrada da Grande Barreira de Corais. Tem vibe jovem, muita festa, veleiro pra todo lado e a Whitehaven Beach, uma das mais lindas do mundo.
Nosso primeiro dia lá foi pura confusão: trancamos a chave dentro do carro (resolvemos com um arame, juro), roubaram nossas roupas na lavanderia e a gente foi parar na delegacia. Depois do caos, sushi pra acalmar o coração e um rolê pela cidade, que é pequena e charmosa.
No dia seguinte, café de frente pro mar e uma das melhores experiências da minha vida: sobrevoar a Grande Barreira de Corais. Vi o famoso coração de coral. Surreal. Fechamos o dia com churrasquinho no pôr do sol.


Aí veio o veleiro. Foram dois dias no barco com a East Coast Tours. No primeiro dia, snorkel na barreira, com peixes gigantes, estrela-do-mar e até um peixe que mordeu meu dedo. Nós, vanlifers, sonhamos com um banho de princesa e ganhamos uma mangueira de 1 minuto, e foi divertido do mesmo jeito. A noite teve gringos, drinks, jogos e muita risada. No segundo dia, nascer do sol do barco e Whitehaven Beach, onde nadamos com raias e vimos um lemon shark.
O lugar é simplesmente surreal, não é à toa que entrou pro meu top 3 lugares mais lindos da Austrália.
Atenção: tem que cuidar das águas-vivas (stingers) na temporada quente. Nunca entre no mar sem checar os avisos.
Paramos em Bowen e a cidade é uma gracinha. Fizemos um circuito de 5 km com um visual incrível e passamos pela King's Beach. Dormimos na casa de um amigo australiano, e olha que a gente estava num estado que dava saudade de lavar louça numa pia de verdade e de ter uma cama só pra si.
Chegamos em Townsville achando que ia ser só mais uma noite tranquila, e em menos de uma hora um possum mordeu meu pé e eu fui parar no hospital. O tipo de história que a estrada insiste em entregar. Depois de algumas horas, eles limparam a mordida, tomei vacina antitetânica e contra raiva e tudo ficou bem.
No dia seguinte, café no Jardim Botânico e, mesmo com quatro horas de sono, seguimos pra Magnetic Island. A ilha tem trilha com vista pro mar, praias lindas e um parque com coalas e kookaburra, aquele passarinho australiano que está sempre rindo. Reserve um dia inteiro pra ela.
Dali seguimos pra Wallaman Falls, a maior queda d'água única da Austrália. E foi aqui que a gente entrou oficialmente na Zona dos Crocodilos. Jantamos um curry apressado no único posto aberto da cidade.
O plano era ir pra Milla Milla Falls, mas a estrada estava fechada, então paramos em Long Beach pra almoçar e já deixar as próximas refeições preparadas. Depois foi Josephine Falls, com uma pedra escorregadia muito legal, e Babinda, com uma água que me encantou de verdade. Wongaling Beach (Mission Beach) e Innisfail também entraram no nosso caminho.
Dica: por causa da chuva, pegamos algumas estradas bloqueadas. Vale conferir no Maps antes de sair.


Chegamos em Cairns bem no finalzinho do pôr do sol, com a cidade cheia de vida e um evento rolando. Jantamos pizza e fechamos com waffle. Cairns tem muito backpacker, muita opção de restaurante e barzinho, e é outro ponto de saída pra Grande Barreira de Corais. Ficamos na casa de um amigo australiano que a gente conheceu na estrada, e foi ótimo ter um cantinho fixo por uns dias.
O que fazer por lá: piquenique no Jardim Chinês, Botanical Garden, Esplanade Lagoon, galeria de arte. Teve uma praia que só deu pra olhar de longe porque tinha alerta de crocodilo, e em Palm Cove foi igual: linda, mas com aviso, então curtimos da areia.
À noite, a gente foi num bar assistir a um jogo de rugby entre Queensland e New South Wales, o famoso State of Origin, que eles vivem como se fosse final de Copa. Depois rolou festinha com dança country, do jeito que os aussies adoram. Depois de tanto tempo só em meio à natureza, foi bom aproveitar a vida noturna.
De Cairns fomos pra Port Douglas e depois Daintree Rainforest, considerada a floresta tropical mais antiga do mundo. Esse lugar lembra um pouco as florestas do Brasil, por causa do clima tropical, e a trilha é bem legal.
Visitamos um parque de crocodilos, onde vimos esses gigantes pela primeira vez, e eu fiquei muito chocada com o tamanho deles: os machos passam dos 5 metros. Eles são muito inteligentes e observam a presa por dias antes de atacar. Foi ali que eu descobri a existência dos crocodilos de água salgada.
O passeio em Daintree custa cerca de $30 por pessoa, e a gente comprou quando chegou lá mesmo. Depois fomos pra Mossman Gorge, que virou uma das minhas florestas preferidas até agora.
No dia seguinte, hora de organizar a van, trocar o bagageiro que rasgou e começar a preparar a próxima etapa: o deserto australiano. Depois de hospital, floresta, praia, crocodilo, festa e cidade, a gente estava pronta pra encarar o oposto de tudo isso.


Antes de cair na estrada rumo ao deserto, teve toda uma preparação. A gente sabia que ia enfrentar trechos sem sinal, sem água e sem estrutura nenhuma, então montamos nosso próprio plano de sobrevivência. E claro que a bateria da van pifou bem nessa hora. Trocamos antes de seguir, porque no meio do deserto não tem ajuda.

Foram três dias dirigindo até o coração da Austrália, cerca de 10 horas por dia, sem quase nenhuma alma viva. Só vaca, dingo e muito canguru na estrada. Passamos por Alice Springs, que tem fama de ser a cidade mais perigosa do país. A dica que eu anotei foi evitar a Gap Road e o Todd Mall depois das 22h, e não deixar nada à vista dentro do carro, nem no teto, porque tem bastante furto.
Quando a gente estava a uns 100 km de Alice, o radiador da van quebrou. Por sorte tinha uma roadhouse a 5 km, de onde ligamos pra todas as lojas da cidade mais próxima. Todos os mecânicos pediam pelo menos 14 dias pra agendar o serviço. Por sorte, um australiano que estava hospedado na roadhouse topou nos ajudar a trocar a peça e a van voltou a funcionar.
Enquanto procurávamos a peça e consertávamos a van, ficamos 3 dias a mais do que o planejado no meio do nada. A parte boa é que vimos camelo pela primeira vez e tomamos vinho com os australianos perto da fogueira.
A gente atravessou o deserto pra chegar aqui. Uluru fica bem no meio do país, e por isso é chamado de coração da Austrália. Literalmente porque está no centro. Simbolicamente porque carrega a alma dos povos originários que vivem aqui há mais de 60 mil anos. Ele tem mais de 340 metros de altura, maior que a Torre Eiffel, e é considerado um dos maiores monólitos do mundo.

E teve a Field of Light, o campo de luzes no meio do deserto. São mais de 50 mil luzes movidas a energia solar que vão acendendo lentamente conforme o céu escurece. Parece que você está em outro planeta. O passeio custa $40 por pessoa, o transporte sai direto do camping em Ayers Rock, e a experiência dura cerca de uma hora. A gente saiu dali meio hipnotizada.
O céu de Uluru é indescritível, um dos melhores lugares do mundo pra ver a Via Láctea. Acampar sob esse céu e ir na Field of Light são duas experiências que todo mundo deveria ter. Eu vi estrela cadente todos os dias e, pra mim, a natureza foi grandiosa em cada detalhe. E por coincidência ou não, quando pisei em Uluru meu visto foi aprovado. Não é à toa que dizem que esse lugar carrega uma energia potente.
Uma coisa que quase ninguém conta: o resort onde a gente ficou tem uma programação de atividades gratuitas todos os dias. A gente fez uma oficina em que os guias ensinam a encontrar comida e água na natureza, o bush food, e foi de graça. Tem também a fazenda de camelos ali na região. Vale muito conferir a agenda das atividades gratuitas antes de ir, porque muda conforme a temporada.




Depois de Uluru, a estrada ainda tinha muito pra ensinar. Kings Canyon é um dos lugares mais grandiosos que a gente já pisou: paredões enormes, silêncio absoluto e um calor seco que abraça a pele. A trilha é intensa, parece que o deserto te testa a cada curva. No caminho achamos um mirante escondido com uma vista maravilhosa.
Na volta, nem tudo foi paz. A gente ajudou um casal que tinha atropelado um canguru e, horas depois, um deles pulou bem na frente da nossa van. Por pouco não rolou um acidente feio. Na Austrália, dirigir faz parte do risco.
Depois de tanta tensão, veio a paz: as águas termais de Mataranka, no meio do mato. Aquele tipo de lugar que lembra como a natureza sabe cuidar da gente.
Num dos dias, lá no norte, a gente foi obrigada a dirigir à noite porque o camping estava fechado quando chegamos. E aí quase rolou um acidente feio: quase atropelamos um camelo. Vimos uma coisa grande atravessando a estrada, freamos com tudo e, por sorte, a gente estava devagar. Paramos bem em frente ao bichinho. Quando olhamos pra cima, tudo que a gente conseguia ver era o cotovelo dele, e ele era gigante.


A gente foi recebida em Darwin por um dos pôres do sol mais lindos da viagem. Depois de dias de deserto sem sinal e sem gente, a cidade parecia outro planeta. Foi como um abraço depois da travessia.
Darwin tem crocodilo de sobra, muita gente circulando por causa da base das forças armadas e uma vida noturna que rola até bem tarde: foi o único lugar da Austrália onde eu encontrei festa até as 4 da manhã. Na wet season é um calor infernal e muito úmido, e não dá pra entrar no mar por causa de crocodilo e águas-vivas mortais. Na dry season rola muito acampamento na praia. E os pôres do sol parecem ter um sol gigante.
A ideia era só passar e seguir até Western Australia, mas a gente estava ficando com pouquíssimo dinheiro, então decidimos parar um tempo e fazer uma grana. Em quatro dias todas nós conseguimos emprego, e ainda por cima empregos que contam pra extensão do visto, por ser área regional. A pausa não foi fácil: achar casa foi um caos, a cidade estava cheia e tudo muito caro. Foram dias morando na van, trabalhando o dia inteiro e dormindo num calor de 35 graus. Depois de duas semanas e meia, conseguimos uma casa e, depois de tanto tempo de estrada, ter um teto, uma cama e um banho quente passou a ter outro valor.
Depois de 3 meses, cada uma sentiu que era hora de seguir um rumo diferente. Sem briga, sem drama. Eu não me via ficando mais em Darwin, porque pra mim o mar é essencial, então comprei uma passagem e fui sozinha pra Western Australia.

Um ponto importante: pra fazer uma viagem dessas você precisa de um bom seguro de carro que cubra todo o território. O que a gente usou foi o da NRMA.
Valores da época em que eu fiz a viagem, então podem ter mudado. Confira sempre antes de reservar.
a van
transporte
hospedagem
passeios e experiências
O resumo dos principais gastos: a van, entre compra e manutenção, foi ~$13.000. O combustível, ~$3.600. Os passeios somados deram ~$850. Tudo isso pra rodar 15.131 km pela Austrália.
Eu nunca me imaginei morando em uma van. Passei por vários desafios: tomar banho frio, lavar louça no chão, não ter privacidade, ter pouquíssima coisa, tipo poucas roupas. Mas quando eu me permiti olhar tudo isso de outra forma, essa vida me ensinou a ser mais minimalista, mais simples e, ao mesmo tempo, mais grandiosa. Ter mais com menos.
Comecei essa viagem jantando massa fria numa van em Straddie e terminei em Darwin, com emprego novo, plano novo e uma passagem só de ida pro outro lado do país. Nada saiu como eu imaginei, e ainda bem.
Se tem uma coisa que essa viagem me ensinou é que a gente não precisa ter tudo planejado pra dar certo. O fogão pega fogo, a van quebra, o dinheiro acaba, o mapa muda. E mesmo assim, ou justamente por isso, foi a melhor coisa que eu fiz.
E lembra que eu falei que ia contar da mineração? Foi em Western Australia que esse plano ganhou forma. Se você quer entender como entrar nesse mundo, comece por aqui.
Espero que esse roteiro possa te ajudar a montar o seu.
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