Minha primeira viagem sozinha pela Ásia. Um loop de moto pelas montanhas do norte, e a versão mais livre de mim que eu já conheci.
Foram 16 dias. Minha primeira viagem sozinha pela Ásia. E eu confesso: comecei essa viagem com medo. Não o medo bonitinho de expectativa, mas aquele frio na barriga de quem está indo pra um lugar completamente diferente de tudo que já viveu, sem rede de apoio, sem saber muito bem no que estava se metendo.
Fui com o coração aberto mesmo assim. E o que vivi lá foi tão intenso que hoje sinto que sou capaz de me virar em qualquer situação. Esse sentimento eu desejo pra cada uma de vocês que está pensando em fazer essa viagem sozinha: é libertador.
Esse post é sobre a parte prática dessa experiência: o roteiro que fiz pelo norte e centro do Vietnã, o que eu recomendo, o que eu faria diferente, e as dicas que eu queria ter recebido antes de ir.

Se você só vai fazer uma coisa no Vietnã, faça essa. O Ha Giang Loop foi de longe uma das melhores experiências da minha vida.
Eu fiz com a Mad Monkey, saindo do hostel deles em Hanói, e escolhi a opção de 4 dias. Recomendo fortemente que você faça o mesmo: se optar pela versão de 3 dias, no terceiro dia você vai simplesmente refazer o caminho todo de volta. Não vale a pena.
Como funciona: você pega um ônibus noturno (7 horas) do hostel do Mad Monkey em Hanói até Ha Giang. De lá começa o loop de moto, com paradas em homestays diferentes a cada noite. São casas de famílias locais, com opção de quarto compartilhado ou privado, onde também estão inclusos jantar, café da manhã e a inevitável "happy water", a cachaça de arroz local.
No começo você está cercada de estranhos de todos os cantos do mundo. No final, são seus melhores amigos.


Essa não é uma experiência de ficar só admirando paisagem. Você vive o país de dentro, vê a realidade bem longe dos pontos turísticos, e essa realidade pode ser chocante. Isso, somado ao visual surreal das montanhas e à adrenalina de andar de moto, faz com que você reflita muito sobre a vida. Eu tive momentos de muita felicidade, momentos de conexão comigo mesma, chorei, ri e cantei alto, às vezes tudo no mesmo dia.
Depois de cada trecho rolava happy hour com todo mundo, incluindo os drivers: karaokê, piscina e, em algumas cidades, paradas em bares. Eu estava numa fase sem beber, mas decidi abrir uma exceção no loop: vai saber quando eu ia ter essa experiência de novo, né? E foi divertido de um jeito que eu sinceramente não sei se vou viver de novo.

Existe a opção de você mesma dirigir a moto. Mesmo que você saiba pilotar, eu recomendo ir com um driver, por dois motivos: o trânsito no Vietnã é caótico e alguns trechos das estradas são bem delicados, exigem quem já conhece a via. E, além disso, indo de garupa você consegue aproveitar 100% da paisagem, sem ter que dividir sua atenção com a estrada.
O loop exige fisicamente. A rotina era café da manhã das 7h30 às 8h30, saída da homestay às 9h e chegada na próxima só às 16h. Param a cada 30 minutos ou mais, mas ainda assim é normal sentir dor nas costas ou no joelho no fim do dia. Fora isso, fazíamos trilhas e nadávamos em rios e cachoeiras pelo caminho.
E sim: paramos em vários cafés com vistas surreais, e eu provei praticamente todos os tipos de café que encontrei: egg coffee, coconut, salted, banana, mango, cheese. Meus favoritos são o coconut e o salted, gelados. O cheese eu não recomendo, achei péssimo.


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Hanói foi minha primeira cidade e é um choque de sensações logo de cara.
Fui na Train Street, mas uma dica importante: vá um pouco mais longe dos cafés do ponto principal. Ali, na área mais concorrida, costuma ter bastante gente e os funcionários dos cafés podem ser bem insistentes, exigindo que você compre bebida ou comida pra poder sentar e ver o trem passar.
Também fui ao Café Giáng provar o famoso café de ovo, o café mais icônico de Hanói. Confesso que só de pensar em café com ovo minha vontade era revirar o estômago. A história por trás é que, durante a guerra, faltava leite, e um funcionário criou essa gemada batida com café pra substituir. Eu pedi a versão gelada e gostei bastante; já a quente não curti tanto. De qualquer forma, foi um café que tomei uma vez só, só pra experimentar.
Comi Pho pela primeira vez em um restaurante com estrela Michelin, o Phở 10, por 15 reais. Também experimentei bánh mì e bún chả, tudo delicioso. Depois do Ha Giang Loop, confesso que fiquei doida atrás de opções mais saudáveis, mas é bem difícil de achar por lá.
Dica de compras: Hanói é ótima pra comprar roupa esportiva. Jaquetas, calças, shorts e leggings de marcas como The North Face, Arc'teryx e Lululemon saem muito mais baratos, com qualidade boa.

Depois de Hanói fui pra Ninh Binh e fiquei 2 dias. Se você puder ficar mais, fique. É uma cidade com uma vibe muito mais relax, de conexão com a natureza, e depois do trânsito caótico de Hanói foi um alívio enorme ter um pouco de paz.
Fiz a trilha da Mua Cave e escalei o "dragão", que, pensando bem depois, foi bem arriscado: eu estava apoiando todo meu peso em um pedaço de estátua que estava rachando. Na hora nem pensei nisso, só depois (vivendo, né?). À noite, dei uma volta pelo centrinho: a old town é fofa, bem iluminada, com templos pequenos espalhados.
Fiquei hospedada no Laneway, um hostel novo, com vibe bem nômade e de viajante. Recomendo.

Fiz o cruzeiro de luxo de 1 dia em Ha Long Bay, e o contraste com o Ha Giang Loop foi enorme, mas foi muito bom ter esse respiro. Existe a opção de 2 dias e 1 noite dormindo no barco, mas sinceramente, 1 dia foi suficiente pra mim.
O tour incluía almoço, trilha no topo da baía, uma caverna escondida, caiaque ou faixa boat (você escolhe), parada numa praia e pôr do sol com drinks. Fiquei impressionada com as ilhas: lindas de verdade. Optei pelo caiaque, e a única coisa que me deixou triste foi o tempo curto: eu ficaria umas 2 horas só apreciando aquele lugar. Foi minha primeira vez de caiaque, e comecei morrendo de medo, mas fiz uma amiga russa (que também nunca tinha remado) e encaramos juntas.
Fiz esse tour pela GetYourGuide. Use o código VOAGIO5 pra qualquer tour deles, no mundo todo, com 5% de desconto.
Meu plano era ficar mais tempo em Hoi An, mas o feriado da independência bagunçou meus planos: fiquei presa em Hanói por 2 dias porque todos os ônibus estavam esgotados. Dica: reserve com antecedência pelo 12Go Asia, que é a plataforma que mais uso pra passagens. Pra corridas dentro da cidade eu uso o Grab, e pra tours a GetYourGuide.
Mesmo com menos dias, me encantei por Hoi An. Fiquei de novo num hostel Mad Monkey, e reforço: é um ótimo lugar pra quem viaja sozinha, porque o ambiente social com atividades facilita muito fazer amizade. Joguei cartas, fiz karaokê, fui num pub crawl e me diverti muito (a galera era, em sua maioria, bem mais jovem que eu: a maioria com 19 anos, e eu com 26 já era "a mais velha").
Ia fazer um cruzeiro ao pôr do sol, mas foi cancelado por causa do tempo. Fui à cidade sozinha mesmo, contratei um barquinho no rio e soltei uma lanterna, fazendo um pedido. Confesso que foi o único momento da viagem em que deu vontade de estar acompanhada: é um cenário muito romântico, o rio cheio de lanternas. Mas lembrei que escolhi viver esses momentos na melhor companhia: a minha mesma.
Durante o dia fiz o famoso passeio de coconut boat (nem acredito que paguei o equivalente a US$ 5 pra "rodar" de barco). Foi surpreendentemente gostoso: 45 minutos em que uma local, a Val, me mostrou o coqueiral, pescamos alguns caranguejos (e soltamos de volta), ela fez uma flor com a fibra do próprio coco, e remamos pelo rio. Uma experiência simples e muito boa.

Na volta pra Austrália, tive um layover de 15 horas em Ho Chi Minh, e claro que saí do aeroporto pra bater perna. Fiz as unhas, andei pelo centro, vi fogos de artifício por causa do feriado de independência e fiquei chocada com o trânsito, que é ainda mais caótico que o de Hanói.
Dica pra atravessar a rua em Ho Chi Minh: respire fundo e atravesse devagar. Nunca corra, isso é pior. As motos vão desviando de você enquanto você caminha em ritmo constante. Se quiser mais segurança, estique a mão enquanto anda, como um sinal pra quem vem. E, ao caminhar pelas laterais das ruas, fique atenta às buzinas: motos e bikes vêm de todos os lados.
Esse foi meu roteiro pelo norte e centro do Vietnã. Ainda queria muito conhecer Cat Ba, Sapa e Da Nang, mas entre o clima da época e o tempo de viagem, não deu.
De qualquer forma, foram 16 dias que mudaram a forma como eu enxergo minha própria capacidade. Se você está pensando em fazer essa viagem sozinha, ou fazer o Ha Giang Loop, e se for reservar com a Mad Monkey ou pela GetYourGuide, já sabe: VOAGIO10 e VOAGIO5.